Dona Maria Aparecida vende quentinhas há onze anos na porta de uma escola estadual em Campinas. Ela acorda às quatro da manhã, compra os ingredientes no atacado, cozinha, embala e serve cerca de sessenta refeições por dia. No final do mês, sobra pouco. Mas o que mais pesa não é o lucro magro — é a invisibilidade.
"Fui no banco pedir um empréstimo pequeno pra comprar uma segunda chapa. Me pediram comprovante de renda. Não tenho como comprovar nada. Pra eles, eu não existo", conta ela, enquanto arruma os marmitex numa caixa de isopor.
A história de Maria Aparecida se repete, com variações, para 38,7 milhões de trabalhadores brasileiros que, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, exercem atividades sem registro formal. São ambulantes, diaristas, motoristas por aplicativo, costureiras, pedreiros autônomos — uma economia paralela que movimenta, segundo estimativas do Ipea, cerca de 20% do PIB nacional.
O paradoxo do crescimento sem proteção
Nos últimos três anos, o Brasil registrou queda consistente na taxa de desemprego. Os números foram celebrados como sinal de recuperação econômica. Mas economistas que acompanham o mercado de trabalho com mais atenção apontam um detalhe que costuma passar despercebido nos comunicados oficiais: boa parte dos postos criados está na informalidade.
"Você tem uma pessoa que saiu do desemprego e entrou na informalidade. Ela aparece nas estatísticas como ocupada, mas continua sem acesso a FGTS, sem seguro-desemprego, sem aposentadoria proporcional", explica a economista Fernanda Luz, pesquisadora do Centro de Estudos do Trabalho da FGV.
"A informalidade não é uma fase de transição. Para muitos trabalhadores, ela é um estado permanente — e o sistema financeiro trata isso como risco, não como realidade."
— Fernanda Luz, FGV
Crédito negado, sonhos adiados
A dificuldade de acesso ao crédito formal é um dos efeitos mais concretos da informalidade. Sem holerite, sem contrato de trabalho, sem CNPJ ativo, o trabalhador informal fica à margem do sistema bancário tradicional. Quando consegue crédito, é nas modalidades mais caras: cheque especial, cartão de crédito rotativo, financeiras com juros que podem ultrapassar 300% ao ano.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em 2024 mostrou que 62% dos trabalhadores informais já recorreram a empréstimos com juros acima de 100% ao ano. A alternativa, para muitos, são os agiotas — uma realidade que o sistema financeiro prefere não quantificar.
O que os dados não mostram
Há um problema metodológico que complica ainda mais a análise: a PNAD Contínua mede a informalidade por declaração do próprio trabalhador. Quem tem vergonha de admitir que trabalha sem registro, ou quem não sabe exatamente qual é sua situação jurídica, pode não ser contabilizado corretamente.
Pesquisadores do Ipea estimam que o número real de trabalhadores em situação de informalidade pode ser até 15% maior do que o divulgado oficialmente. "Há uma subnotificação sistemática, especialmente entre trabalhadores domésticos e rurais", aponta o economista Rodrigo Mendes, do Ipea.
Para Maria Aparecida, esses números são abstratos. O que ela sabe é que, depois de onze anos de trabalho duro, ainda não tem como provar para um banco que merece crédito. "Eu pago minhas contas em dia, nunca deixei de pagar nada. Mas no papel eu não existo."