Quando o Banco Central divulga as notas de crédito mensais, os números costumam ser lidos como um termômetro da saúde econômica do país. Taxa de inadimplência, volume de concessões, spread bancário — são indicadores que economistas e jornalistas financeiros acompanham com atenção. O que raramente aparece nessa leitura é o que está por trás dos agregados: quem está tomando crédito, a que custo e para quê.

A Probr cruzou os dados das notas de crédito do Banco Central com informações da PNAD Contínua e do Cadastro Único para tentar responder a uma pergunta simples: a Selic alta está afetando todo mundo da mesma forma?

A resposta, como era de se esperar, é não.

O mapa do crédito caro

As modalidades de crédito mais utilizadas pelas famílias de menor renda — cartão de crédito rotativo, cheque especial e crédito pessoal não consignado — têm taxas médias que, em junho de 2025, variavam entre 87% e 440% ao ano, segundo dados do Banco Central. Para comparação, o crédito imobiliário, acessível principalmente para famílias de renda média e alta, opera com taxas entre 10% e 14% ao ano.

ModalidadeTaxa média anual (jun/2025)Perfil predominante
Crédito imobiliário11,8%Renda média/alta
Crédito consignado24,3%Servidores e aposentados
Crédito pessoal não consignado87,4%Trabalhadores formais
Cheque especial131,2%Correntistas em geral
Cartão rotativo440,6%Todos os perfis

Norte e Nordeste pagam mais

Quando a análise é desagregada por região, as disparidades ficam ainda mais evidentes. Nas regiões Norte e Nordeste, onde a renda média é menor e a informalidade é maior, a proporção de famílias que recorrem ao cartão rotativo e ao cheque especial é significativamente mais alta do que no Sul e Sudeste.

"Você tem um sistema de crédito que cobra mais de quem tem menos. Isso não é uma falha do mercado — é o mercado funcionando exatamente como foi desenhado."
— Economista Rodrigo Mendes, Ipea

Em Belém, por exemplo, 34% das famílias com renda entre um e dois salários mínimos declararam ter usado o cartão rotativo nos últimos seis meses, segundo dados do Serasa Experian. Em Florianópolis, esse percentual cai para 18%.

O que a Selic tem a ver com isso

A taxa básica de juros influencia o custo de captação dos bancos, que por sua vez determina as taxas cobradas dos clientes. Mas a relação não é linear. Quando a Selic sobe, os bancos tendem a repassar o aumento de forma mais rápida e intensa nas modalidades de crédito mais arriscadas — exatamente aquelas usadas pelas famílias de menor renda.

Na prática, isso significa que a política monetária de combate à inflação tem um custo distributivo: quem paga a conta mais cara são os que já têm menos. Não é uma novidade acadêmica, mas é um fato que raramente aparece nos comunicados do Copom.