Seu Antônio Ferreira tem uma loja de materiais de construção em Caruaru, no Agreste pernambucano, há 22 anos. Quando perguntado sobre a reforma tributária, ele responde com outra pergunta: "Qual reforma? Tem tanta coisa mudando que a gente não consegue mais acompanhar."

A sensação de Seu Antônio é compartilhada por boa parte dos pequenos empresários do interior nordestino. A reforma tributária aprovada em 2023 e em fase de implementação gradual até 2033 promete simplificar o sistema tributário brasileiro, mas no cotidiano de quem vende tijolo, faz conserto de eletrodomésticos ou administra um pequeno restaurante, a simplificação ainda não chegou.

O que muda, na prática

A reforma cria o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substituirão gradualmente cinco tributos: PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS. Para as empresas do Simples Nacional — regime que abrange a maioria dos pequenos negócios — a transição tem regras específicas que ainda estão sendo regulamentadas.

O problema, segundo especialistas ouvidos pela Probr, é que a regulamentação está chegando em conta-gotas, e os contadores das cidades menores muitas vezes não têm acesso às mesmas ferramentas de atualização que os grandes escritórios das capitais.

"Meu contador me disse que vai mudar tudo, mas que ainda não sabe exatamente como. Fico esperando. Enquanto isso, continuo pagando o que sempre paguei e torço para não ter surpresa."
— Seu Antônio Ferreira, empresário, Caruaru (PE)

Contadores sobrecarregados

Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, a contadora Silvana Rocha atende mais de 80 clientes, a maioria microempresas e MEIs. Ela diz que passou os últimos seis meses em cursos e webinars tentando entender as novas regras. "O problema não é a reforma em si. É que as normas complementares saem aos pedaços. Você aprende uma coisa hoje e amanhã vem uma instrução normativa que muda tudo."

A situação é agravada pela falta de infraestrutura digital em algumas cidades. Em municípios com menos de 20 mil habitantes, a emissão de notas fiscais eletrônicas ainda enfrenta problemas de conectividade que tornam qualquer transição mais lenta e custosa.

Quem pode ganhar e quem pode perder

Economistas que estudam o impacto regional da reforma apontam que o Nordeste pode ser beneficiado no longo prazo, especialmente pela desoneração de produtos da cesta básica e pela possibilidade de créditos tributários para empresas que investem na região. Mas o curto prazo é de incerteza.

"A reforma é boa para o Brasil, mas o calendário de implementação não leva em conta as diferenças de capacidade administrativa entre os estados e municípios", avalia o economista Paulo Siqueira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Para Seu Antônio, a discussão é mais simples: "Eu só quero saber o que eu tenho que pagar e quando. O resto é conversa de político."